Nesta semana o céu guarda uma coisa, e guarda-a à vista de todos. O Sol vai no princípio de Leão, em sua própria casa, e ali encontra Júpiter. Vinham a aproximar-se desde a semana passada; agora chegam ao ponto exacto. A 29 de julho, ao meio-dia, Júpiter entra no coração do Sol. É a única circunstância em que a vizinhança do Sol não queima um planeta mas o abriga, e nela Júpiter está mais forte do que em qualquer outro ponto da sua longa volta ao céu.

E ninguém o vê. Nesses mesmos dias Júpiter passa por trás do corpo do Sol, à maior distância a que alguma vez está de nós, e apaga-se do céu. Não fica pálido, fica invisível, e assim há-de ficar semanas, até voltar a nascer de madrugada, muito antes do Sol. O maior benfeitor do céu, no auge da sua força, sem que se possa apontá-lo com o dedo. Está inteiro, está guardado, e não se mostra.

Já a Lua enche-se em Aquário, precisamente de frente (Lua Cheia). É a mesma imagem vista pelo avesso. Toda a luz que se pode olhar nesta semana está do lado oposto àquele onde a coisa se está a fazer: o clarão de fora, cheio e redondo, e do outro lado do céu, no escuro do próprio brilho, aquilo que ainda não tem forma de se mostrar. A Lua cheia dá-nos o fora. O dentro fica onde está, e é ele que importa.

Daqui vem o tom destes dias. Há coisas que já existem inteiras e ainda não se podem ver, e é um erro tomar essa invisibilidade por ausência. Um propósito que se firmou em silêncio, um afecto que ainda não tem nome, um trabalho que já tem a sua forma mas não tem ainda rosto, uma decisão que já está tomada por dentro e ainda não foi dita. Nada disso está atrasado. Está a formar-se, e formar-se leva o tempo que leva.

Saturno lembra-o com o peso que lhe é próprio. Estacionou a recuar na véspera desta semana e fica quase imóvel em Carneiro durante todos estes dias, andando dois minutos de arco em sete. É o tempo que não se apressa, o alicerce que não seca mais depressa por lhe pormos a mão em cima. Onde há prazo curto e vontade de o encurtar mais, este céu responde com uma paragem serena.

E é aqui que convém a cautela, porque a semana também põe uma lâmina ao alcance da mão. Vénus, em Virgem, e Marte, em Gémeos, chegam à sua quadratura exacta no mesmo dia do encontro maior: o desejo que puxa depressa contra o cuidado que quer bem-feito. Mercúrio, saído há pouco do recuo e ainda lento nas águas de Caranguejo, tem duas semanas de silêncio para trás e a boca cheia do que reviu. A tentação é evidente: nomear já, declarar já, exigir prova já, abrir para ver se está lá. A lâmina é boa e serve, mas serve depois. Cortar o que ainda se está a fazer não adianta o nascimento; substitui-o.

O mesmo se lê, por estes dias, no palco do mundo. As mesas visíveis pararam e é sobretudo fora dos holofotes que se trabalha, em conversas técnicas de que pouco se sabe, silêncios que tanto podem ser trégua a formar-se como fôlego preso antes do golpe seguinte. De fora ninguém consegue distinguir uma coisa da outra, e é justamente essa a natureza destes dias: o que decide não está à vista, e ainda assim está. Os astros, contudo, não obrigam, inclinam. No fundo, a semana devolve-nos a uma pergunta: o que é que, dentro de nós, já está formado e ainda não pode ser mostrado, e teremos nós a paciência de o deixar chegar ao seu termo, em vez de o abrir para confirmar que existe?