Com o Sol a brilhar em Caranguejo esta semana, temos a Lua cheia em Capricórnio, a passagem de Júpiter para Leão — cumprindo a promessa que deixámos na semana passada — e Mercúrio que, depois de estacionar, inicia enfim a sua retrogradação. É uma semana de soleiras: lugares onde algo culmina e algo recomeça.
A Lua cheia faz-se quando os dois luminares se opõem de um extremo ao outro do céu: o Sol nos primeiros graus de Caranguejo, hóspede na casa da Lua, e a Lua defronte, em Capricórnio. Aí ela atinge o máximo da sua luz no lugar onde menos governa — Capricórnio é o seu exílio, a terra fria e árida de Saturno. É uma luminária plena de claridade e, ao mesmo tempo, longe de casa: a imagem de quem chega ao auge de algo num território que não é o seu, e que por isso vê com nitidez aquilo de que está separado, num local onde não consegue cumprir o que anseia.
O eixo Caranguejo–Capricórnio que esta Lua ilumina é o da casa e do mundo, do cuidado e do dever, do colo que acolhe e da estrutura que exige. Depois de uma semana inteira a meditar sobre o que nos nutre, a Lua cheia mostra-nos a outra margem: o que se constrói com disciplina, o que perdura pelo trabalho e pelo tempo, o frio necessário de Saturno que dá forma e limite àquilo que o cuidado fez crescer. É um momento de balanço — ver o que amadureceu e merece ser colhido, e o que ainda pede esforço, paciência e contenção.
E cumpre-se enfim a partida que se anunciava: a 30 de junho Júpiter deixa Caranguejo, o seu lugar de exaltação, e entra em Leão. A maior das forças benéficas sai do signo do recolhimento e instala-se na casa do Sol — o fogo fixo, régio e radiante. A generosidade que protegia e transbordava no abrigo de Caranguejo muda agora de tom: Júpiter torna-se magnânimo, criativo, voltado para fora, generoso como quem dá em público e à luz do dia. É a abundância que quer brilhar e ser reconhecida; e traz, por isso, a sua sombra — o excesso, o orgulho, a vontade de ocupar todo o palco e de medir o valor pelo aplauso.
Enquanto Júpiter avança para diante, Mercúrio faz o movimento contrário. Depois de, na semana passada, se recusar a abandonar Caranguejo, estaciona e começa a recuar — retrógrado, volta sobre os seus próprios passos. No signo da Lua, a mente vira-se para dentro e para trás: para a memória, para o que ficou por dizer dentro de casa, para conversas antigas e assuntos de família que pedem para ser revisitados. É tempo de rever antes de afirmar, de reler antes de assinar, de escutar o que a pressa tinha deixado por ouvir — e de contar com os mal-entendidos, os atrasos e as palavras que se trocam quando o pensamento anda em sentido inverso ao do relógio.
Há, portanto, dois andamentos a conviver: um que abre a porta para diante, em Leão, e outro que nos chama de volta ao limiar de onde viemos. A imagem da semana é a de uma soleira enfeitada — o pórtico que se atravessa quando uma etapa se cumpre e outra começa, a festa breve à entrada de um lugar erguido com trabalho. Antes de cruzar, olha-se para trás e faz-se as contas ao que se construiu; ao cruzar, leva-se o que ficou sólido e deixa-se o que era apenas peso.
No fundo, toda a semana nos devolve à mesma pergunta: o que já está pronto para celebrar e atravessar, e o que ainda nos pede que voltemos atrás antes de seguir — e o que, da soleira, merece mesmo vir connosco.
ALMUTEM


