Hoje, ao fim da tarde, o Sol põe-se em Portugal com um pedaço a menos. Em Lisboa falta-lhe 94%. No Porto, 98%. Em Bragança, 99,94%. E numa faixa estreita de aldeias colada à fronteira, a norte e a leste de Bragança, falta-lhe tudo: em Rio de Onor a Lua tapa o Sol por inteiro durante cerca de 35 segundos.

Vale dizê-lo com cuidado, porque as duas versões que vão circular estão erradas. Não é verdade que o eclipse seja total em Portugal, e não é verdade que seja apenas parcial. A faixa onde o Sol desaparece por completo entra na Península pela Galiza, atravessa o norte de Espanha até às Baleares, e o seu limite passa a rasar o canto nordeste do território português. Bragança, a cidade, fica de fora por 0,06% de obscurecimento. Vinte quilómetros mais a norte, fica dentro.

Para quem quiser ver, em hora de Portugal continental:

  • Rio de Onor, total, 35 segundos. Começa 18:34, máximo 19:30, acaba 20:23. O Sol põe-se às 20:31.
  • Bragança, 99,94%. Começa 18:34, máximo 19:31, acaba 20:24. O Sol põe-se às 20:31.
  • Chaves, 99,58%. Começa 18:34, máximo 19:31, acaba 20:24. O Sol põe-se às 20:34.
  • Melgaço, 99,53%. Começa 18:33, máximo 19:30, acaba 20:24. O Sol põe-se às 20:38.
  • Braga, 98,82%. Começa 18:34, máximo 19:31, acaba 20:25. O Sol põe-se às 20:37.
  • Porto, 98,21%. Começa 18:35, máximo 19:32, acaba 20:25. O Sol põe-se às 20:38.
  • Lisboa, 94,45%. Começa 18:39, máximo 19:36, acaba 20:29. O Sol põe-se às 20:35.
  • Faro, 92,66%. Começa 18:42, máximo 19:39, acaba 20:31. O Sol põe-se às 20:27.
  • Funchal, 77,43%. Começa 18:49, máximo 19:47, acaba 20:40. O Sol põe-se às 20:56.

A figura no topo desta página mostra a progressão minuto a minuto, com as posições e os tamanhos verdadeiros: o disco da Lua é 1,034 vezes o do Sol, e é por essa razão ser maior que um que este eclipse pode ser total onde a faixa passa. Está desenhada para Lisboa e não para o nordeste por uma razão de honestidade: a 99,94% o crescente que sobra tem quatro décimos de pixel de espessura à escala em que a figura cabe numa página, e desenhá-lo maior afirmaria uma totalidade que Bragança não tem.

Repare-se no Algarve: em Faro o Sol põe-se antes de o eclipse acabar, mergulha no horizonte ainda mordido. E em quase todo o país o máximo dá-se com o Sol a uns dez graus de altura, muito baixo, o que é uma imagem invulgar e também um risco. Um Sol 94% tapado queima a retina exactamente como um Sol inteiro. Filtro certificado, ou projecção numa parede. Nunca a olho, nem com óculos de sol, nem com radiografias.

O essencial, se não quiser o resto

Segue-se a delineação com as fontes à vista, mas o que ela dá para levar é isto:

  1. Um eclipse não é um golpe, é um forno que arrefece devagar. É a imagem de Cardano, e é por isso que estes autores nunca leram eclipses como notícia de um dia. Para este, a regra antiga dá cerca de um ano e dez meses, portanto até meados de 2028.
  2. Este eclipse tem um assunto definido, e o dono dele está forte. Dá-se em Leão, que é o signo do Sol, e por isso quem o governa é o próprio Sol, em casa própria. Os assuntos do Sol são a autoridade, quem manda, o pai, aquilo que num grupo faz de centro, aquilo que se mostra. O que se apaga hoje por segundos é o dono da casa, dentro da casa dele.
  3. Leão é signo fixo, e para signos fixos a tradição lê alicerces e edifícios. Não o que cai do céu, mas o que estava assente, o que se construiu para durar, o que ninguém questiona porque já lá está.
  4. A escala é colectiva e não pessoal. Cardano é explícito: os eclipses operam com mais força sobre cidades, províncias e reinos do que sobre pessoas particulares. Quem lhe pedir um prognóstico da sua vida privada está a pedir ao instrumento o que ele não mede.
  5. É fundo em obscurecimento e fraco em posição. Na escala com que Cardano ordena as casas do mapa por força, este eclipse cai justamente na zona das menos eficazes. As duas coisas contam ao mesmo tempo.
  6. E é de arranque tardio. Pela regra de Ptolomeu, um eclipse que se dá do lado do poente, como este em Portugal, começa a dar sinal só para o fim do primeiro ano, com o peso na parte final do período.
  7. A percentagem de Sol tapado é uma medida, não uma curiosidade de viajante. É a régua com que a tradição estima a extensão do que se lê. Por isso Portugal não tem hoje uma leitura só: vai de uma nesga a 100% em Trás-os-Montes até aos 77% da Madeira.
  8. Há um ponto em que estes textos são duros, e é o grau exacto. Cito-o adiante em vez de o esconder, com os três limites que os próprios livros lhe põem a seguir.

E, para cada um, a única pergunta que aqui é útil: o grau é 20°02' de Leão, e o que interessa é que casa do seu mapa é essa e o que ela anda a pedir.

O que é um eclipse para esta tradição

Vale a pena começar por aqui, porque a ideia corrente é que um eclipse é um mau presságio, e não é isso que os textos dizem.

Girolamo Cardano, médico e astrólogo de Milão, escreveu no século XVI mais de mil aforismos, e Lilly publicou dois séculos depois uma escolha deles em inglês. Um desses aforismos descreve o mecanismo em três camadas, e é a melhor descrição breve que conheço:

Um eclipse tem um efeito triplo: primeiro poderoso, por razão da conjunção ou oposição em que acontece; segundo geral, porque arrefece lentamente, e nesse aspecto estende-se por muito tempo; terceiro, o poder que recebe do senhor do lugar onde acontece e das outras posições daquele momento.

Arrefece lentamente. Não é um golpe, é um forno que se apaga devagar. É por isso que estes autores nunca leram um eclipse como notícia do dia e sempre como assunto de anos.

E há um segundo aforismo de Cardano que devia estar impresso em todo o artigo que se escreve sobre eclipses:

Os eclipses operam com mais força sobre Cidades, Províncias e Reinos do que sobre pessoas particulares de condição privada, ou mesmo sobre Reis e Príncipes, porque os seus efeitos respeitam antes a multidão.

Ou seja: o próprio autor que catalogou os efeitos avisa que a escala de um eclipse é colectiva, e que a vida privada de cada um não é o palco onde ele se lê. É uma limitação escrita por dentro da tradição, não uma prudência moderna acrescentada por fora. Cardano põe outro travão, e ainda mais explícito: nenhum eclipse pode ameaçar escassez ou peste à Terra inteira, e nenhuma peste dura mais de quatro anos no mesmo lugar. Estes textos têm tecto.

O senhor deste eclipse é o Sol, e está em casa

O primeiro dos aforismos de Cardano sobre eclipses é também o mais prático:

Num eclipse é necessário considerar a força do planeta que então governa, porque serão sobretudo as significações dele que aparecerão.

Aplicar isto é simples e o resultado deste ano é invulgar. O eclipse dá-se em Leão, e Leão é o signo do Sol. Portanto o planeta que governa este eclipse é o próprio Sol, e está no signo que lhe pertence. Na linguagem da arte, está em domicílio, que é a palavra antiga para um planeta que se encontra em casa própria, com autoridade sobre o terreno em que pisa. E é de dia, o que lhe acrescenta a sua triplicidade, uma segunda forma de estar bem colocado.

Isto muda o tom da leitura. Um eclipse cujo senhor está fraco, exilado ou em queda dá uma leitura de coisa que se desmancha. Aqui é o contrário: o que se apaga é o próprio dono da casa, dentro da casa dele. As significações que aparecem, diz Cardano, serão as do Sol, e as do Sol são a autoridade, o que governa, o que se mostra, o pai, o rei, aquilo que num grupo faz o papel de centro. Não é um eclipse difuso. É um eclipse com um assunto.

Ao lado do Sol, no mesmo signo, estão mais três corpos: a Lua, que é a peça que tapa; Mercúrio, sem dignidade nenhuma onde está, o que a tradição chama peregrino, como quem passa por um sítio onde não tem casa nem direitos; e Júpiter, o maior benéfico, a caminhar directo. Quatro corpos no mesmo signo, o que concentra a leitura em vez de a espalhar.

Um signo fixo, e um grau que a tradição não poupa

Os autores mundanos classificavam primeiro pelo tipo de signo. William Ramesey, no século XVII, resume a regra assim: um eclipse nos signos equinociais mostra os efeitos nas coisas religiosas; nos trópicos, no ar, nas leis e nos costumes; nos signos fixos, nos alicerces e nos edifícios; nos signos comuns, na humanidade e nos reis.

Leão é signo fixo. Alicerces e edifícios. É uma leitura menos espectacular do que se espera de um eclipse e, precisamente por isso, mais interessante: aquilo que estava assente, aquilo que se construiu para durar, aquilo que ninguém questiona porque já lá está. É o registo de coisas que se descobrem por baixo, não de coisas que caem do céu.

O mesmo Ramesey desce depois ao grau, dividindo cada signo em três faces de dez graus. O eclipse de hoje dá-se a 20 graus e 2 minutos de Leão, ou seja dois graus dentro da terceira face. E aqui a tradição não é amável. Para a terceira face de Leão, Ramesey escreve: cativeiros, matanças, roubos e a profanação de casas santas e sagradas.

Cito porque é o que está escrito, e omiti-lo seria fazer de conta que a tradição é mais simpática do que é. Mas há três coisas a dizer a seguir, e todas elas vêm de dentro dos mesmos livros.

A primeira é que esta é a língua de um mundo de reinos, cercos e colheitas, escrita por homens que viam morrer um terço de uma cidade numa peste. Quando Ramesey escreve «matanças», escreve sobre o material do seu século, e a lista dele lê-se como um catálogo do que então acontecia, não como um horário.

A segunda é que Cardano, no aforismo 14, diz que eclipses em signos de fogo, e Leão é de fogo, significam guerras e matanças, mas que eclipses em signos de terra dão secas e falta de pão, em signos de água dão chuva demais, e em signos de ar ventos e sedições. Todas as quatro possibilidades são graves. Um sistema em que nenhuma opção é boa está a dizer, na verdade, que um eclipse é um acontecimento de peso, não que este eclipse em particular seja pior que os outros.

A terceira é a mais concreta, e é a que mais pesa neste caso. Cardano ordena as casas do mapa por força: um eclipse na quarta casa é mais forte e eficaz do que na oitava ou na décima segunda, e no Ascendente mais do que na nona ou na décima primeira. Visto de toda a Península, este eclipse cai justamente na zona que ele classifica como a menos eficaz, do lado do poente, entre a sétima e a oitava casas. Pela própria escala de Cardano, este é um eclipse fundo em obscurecimento e fraco em posição.

As contas de tempo, e duas fontes que concordam

Há uma regra antiga para saber quanto tempo se estende a leitura de um eclipse, e o interessante é que aparece igual em dois autores separados por mil e quatrocentos anos.

Ptolomeu, no segundo livro do Tetrabiblos, escreve que num eclipse solar os acontecimentos duram tantos anos quantas forem as horas da duração do eclipse. Cardano diz o mesmo com outras palavras: um eclipse da Lua estende os seus efeitos por tantos meses, e o do Sol por tantos anos, quantas horas durar.

Em Portugal, do primeiro ao último contacto, o eclipse de hoje dura uma hora e cinquenta minutos, isto é 1,83 horas. Pela regra, cerca de um ano e dez meses, o que leva a leitura até meados de 2028. Uso a duração visível completa, e não a da totalidade, que aqui quase não existe.

Ptolomeu acrescenta uma segunda conta, para o arranque, e essa depende de onde no céu o eclipse pega. Se acontece do lado do nascente, começa nos primeiros quatro meses. Se no alto do céu, no segundo grupo de quatro meses. Se do lado do poente, no terceiro grupo de quatro meses, com o peso na parte final do período. Em Portugal o Sol eclipsa-se a poente e a dez graus do horizonte, portanto cai o terceiro caso: arranque tardio, já para o fim do primeiro ano, e o peso lá para o fim.

A régua é a percentagem

Falta a peça que liga a tabela do princípio a tudo isto, e é a que mais me surpreendeu quando fui aos livros.

Ptolomeu manda começar o juízo pela visibilidade, examinando «em particular aqueles mais fáceis de serem observados». Um eclipse que de um lugar não se vê é, para este método, um eclipse que a esse lugar diz pouco. E quando chega à pergunta de quanto da população é abrangida, responde que isso se lê «pela extensão do obscurecimento dos eclipses e pelas posições relativas ao lugar do eclipse».

Extensão do obscurecimento. O método antigo, sem efemérides ao segundo e sem mapas de sombra, mandava medir quanto do disco desapareceu e usar isso como escala do que se lê. A percentagem não era curiosidade de viajante, era quantidade.

Por essa régua, Portugal fica hoje com os dois extremos ao mesmo tempo. Uma nesga em Trás-os-Montes com a leitura inteira, meio minuto dela, e a Madeira a 77%, claramente mais de fora. Entre os dois, o continente todo acima dos 92%. Para este método, essa variação não é ruído: é a informação.

O resto do céu, para quem quiser o detalhe

Quem lê mapas encontra o seguinte. O Sol e a Lua juntam-se a 20°02' e 20°06' de Leão, uma conjunção partil, que é o nome que se dá quando a distância é de minutos e não de graus: sete minutos de arco, neste caso. Mercúrio está a 5°07' de Leão e Júpiter a 9°33', directo.

Fora de Leão, as duas peças que a tradição costuma pesar num eclipse estão ambas fracas. Marte a 0°55' de Caranguejo, em queda, que é o pior dos lugares depois do exílio. Saturno a 14°30' de Carneiro, retrógrado, também em queda. Vénus está bem, em casa própria a 5°53' de Balança, mas caminha para uma oposição a Saturno que ainda não fecha.

Visto de Lisboa, com casas de Alcabitius, o Ascendente está a 17°51' de Capricórnio e o meio-céu a 10°55' de Escorpião. O eclipse dá-se acima do horizonte de poente, na sétima casa, a 3°22' da cúspide da oitava. Digo os dois números porque a regra tradicional dos cinco graus, que esta casa da astrologia aplica, lê um corpo a menos de cinco graus da cúspide seguinte já na casa seguinte, e portanto na oitava. Quem abrir o mapa noutro programa vai ver sétima. É a mesma zona que Cardano classifica como a menos eficaz, de qualquer das formas.

Sobre estrelas fixas, um pormenor que é fácil dizer mal. Nenhuma estrela brilhante está conjunta ao grau do eclipse. Régulo, o coração do Leão, está hoje a 0°11' de Virgem, dez graus à frente do Sol, longe demais. Mas o Nodo Sul da Lua está a 29°50' de Leão, o que o deixa a 21 minutos de arco de Régulo, e o nodo não é uma peça qualquer: é a peça que faz de uma lunação um eclipse. A tradição dá a Régulo natureza de Marte, e vários autores acrescentam Júpiter.

Marte e Júpiter são, precisamente, os dois senhores que Ptolomeu dá ao quadrante europeu. O trecho é literal: o quadrante da Europa, no noroeste do mundo habitado, é semelhante ao triângulo do noroeste, «Áries, Leão e Sagitário», e é governado pelos senhores desse triângulo, Júpiter e Marte. O eclipse de hoje cai em Leão, um dos três signos que Ptolomeu atribui a esta parte do mundo. Dos dois senhores, um está dentro do signo eclipsado e o outro está em queda.

O que fica em aberto

Duas coisas, e prefiro dizê-las do que fingir que o trabalho fechou.

O método pede o que eu não tenho. Ptolomeu manda averiguar as cidades pelo mapa da sua fundação e pelo meio-céu de quem as governa. Para Lisboa isso não é conta que se faça de cabeça, e as datas de fundação que circulam não têm o rigor que o método pede.

E sobre a nesga de totalidade em Trás-os-Montes, um aviso técnico. As contas são minhas, feitas com o motor deste site, e o limite da sombra ao nível do metro depende do perfil das montanhas na borda da Lua, que nenhum motor comum modela. Quem quiser viajar para ver a totalidade deve confiar nos mapas especializados e não em mim.

E para quem lê

Fica a nota que Lilly deixa em Christian Astrology, e que passa dos reinos para as pessoas: o signo de um eclipse a cair sobre um dos ângulos de um mapa natal, e sobretudo sobre o Ascendente, é coisa que ele lê com muita cautela. Não como sentença. Como cautela. E Cardano, como se viu, avisa que a escala destas leituras é a multidão e não a pessoa privada.

Feitas as duas ressalvas, sobra uma pergunta que é útil e não é adivinhação. O grau é 20°02' de Leão. Onde é que esse grau cai no seu mapa, que casa é aquela, e o que é que essa casa anda a pedir há algum tempo? O senhor deste eclipse é o Sol em casa própria, e o que o Sol trata é sempre a mesma coisa: quem manda, o que se mostra, o que ocupa o centro. Hoje, em quase todo o país, ainda passa luz por cima da Lua. O método antigo conta com isso. Mede quanto passou, e é dessa medida que faz o resto.